Vencendo a inatividade, aqui está uma nova resenha vilamatasiana que fiz para o Correio Braziliense; publicada há mais de mês.

Literatura portátil.
Marcel Duchamp, Ferenc Szalay, Paul Morand, Jacques Rigaut, George Antheil, Blaise Cendrars, Man Ray, Valery Laurbad, Fitzgerald, Dalí, Tristan Tzara, Walter Benjamin, Céline, Juan Gris, Paul Klee, Aleister Crowley, Robert Walser, Marianne Moore, Ezra Pound, Ossip Mandelstam, Cyril Connolly, Erich von Stroheim, Henri Michaux, Max Ernest, César Vallejo, Jean Cocteau e García Lorca possuíam espírito inovador, sexualidade extrema, ausência de grandes propósitos, nomadismo infatigável, tensa convivência com a figura do duplo, simpatia pela negritude e eram exímios no culto da arte da insolência. Eram artistas portáteis, porquanto suas obras também o eram. Da apoteose dos pesos leves na história da literatura surgiram os “shandys”, que em sua breve trajetória – entre outros feitos – chegaram a juntar-se no submarino Bahnhof Zoo para fumar ópio e para “abismar-se naquilo que nos sustenta”.
Ao menos é o que Enrique Vila-Matas nos conta em História abreviada da literatura portátil. Sétimo livro do catalão pela editora Cosac Naify, História abreviada pode ser considerado uma boa porta de entrada para o universo do autor. Neste livro (publicado originalmente em 1985) surgirá pela primeira vez um dos artifícios inerentes a sua escrita, a exploração das biografias – na maior parte das vezes, imaginárias – de personagens escritores.
Fechando a publicação de um ciclo que foi alcunhado pelo editor Jorge Herralde de “A Catedral Metaliterária” – onde se encontram também Bartleby e companhia, O mal de Montano e Doutor Pasavento –, a história contada aqui é a da trajetória de um grupo de intelectuais, pintores e escritores que, em 1924, resolvem fundar uma sociedade secreta. Conhecidos como portáteis ou shandys – uma homenagem ao Tristram Shandy, de Laurence Sterne – o grupo tem entre seus ideais o amor à escrita como diversão, o espírito inovador, a recusa ao suicídio e a autoria de obras que pudessem caber facilmente em uma maleta.

Vila-Matas - Born in the U.S.A.
Reunidos, os shandys fazem o périplo Palermo, Viena, Praga, Trieste, Paris contando histórias e, longe de tudo, trabalhando em suas obras – em trânsito é que Fitzgerald teria colocado o ponto final em seu O Grande Gatsby. Contudo, concentrar-se tem seus riscos e acaba criando odradeks, golens, bucarestes e todo tipo de criaturas que povoam a solidão daqueles que, em tensa convivência com o duplo, se isolam para trabalhar. Mas é de um cartão-postal de Aleister Crowley – e não do assédio de um odradrek – que vem a dissolução da confraria. O mago, amigo de Fernando Pessoa, é quem revela os segredos da sociedade e a desfaz, sem choro, contudo; os shandys passaram rápido como tudo tem de passar.
Os leitores de Vila-Matas certamente terão mais uma alegria com a publicação deste volume onde as já conhecidas falsas citações, mentiras verossímeis e toda sorte de falsificações – herdeiras diretas de um certo Jorge Luis Borges – parecem atingir seu ápice. O projeto gráfico da edição acompanha a identidade visual de sua coleção, porém em formato especial, de bolso, portátil, como um tributo aos shandys do autor que defendiam uma linguagem ágil e denunciavam “o gesto pretensioso e universal do livro”. Em 2011, a Cosac Naify lançará ainda Dublinesca, o romance mais recente de Vila-Matas, onde James Joyce e os outros shandys irlandeses é que serão alvos da metaliteratura vilamatasiana.
TRECHOS
Valery Larbaud era o artista portátil por excelência. Sua sexualidade era extrema e ele rechaçava radicalmente qualquer ideia de suicídio. Além do mais, era notável sua tensa convivência com o duplo, assim como sua simpatia pela negritude, seu perfeito funcionamento de máquina celibatária, sua ausência de grandes propósitos, seu cultivo da arte da insolência e seu gosto por viajar com uma maleta onde carregava sua obra leve, rarefeita.
Como se vê, um shandy muito completo. Era o típico homem mundano e culto que, sem desdenhar nenhuma particularidade, aspirava a uma cultura internacional sem fronteiras, a um mundo de grandes horizontes e grandes origens, belo ideal do entreguerras.
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Assim passam os dias. De vez em quando, algumas palavras furtivas no pátio do silêncio me permitem saber como andam as coisas para os outros, e foi assim que tive a notícia, por exemplo, de que Scott Fitzgerald colocou ponto final num romance sobre um tal Gatsby: a história de um homem que enfrenta seu passado num inexorável destino rumo ao nada.
George Antheil trabalha em seu Ballet Mécanique, música shandy por excelência, e, ao mesmo tempo, tornou-se pintor e desenhista do minúsculo: os mil fios de cabelo de uma trança ou as irisações de uma manga, por exemplo.
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Cada vez me parece mais evidente que nós, os portáteis, viemos ao mundo para expressar o fundo mais secreto e recôndito de nossa natureza. É isso que nos separa de nossos mornos contemporâneos. E é porque creio que estamos profundamente unidos ao espírito da época, aos problemas subjacentes que a acossam e lhe dão seu tom e caráter. Somos sempre duais na aparência, e assim somos porque encarnamos o novo e o velho ao mesmo tempo. Temos nossas raízes no mesmo futuro que tão profundamente nos preocupa. Possuímos dois ritmos, dois rostos, duas interpretações. Estamos integrados na transição, no fluxo. Sábios num novo estilo, nossa linguagem é cifrada, volúvel e louca. Tão cifrada quanto este postal que está chegando a seu fim: um postal que, no fundo, não pretende mais que informá-lo de nossa grande febre criativa e de nossa constante exaltação do prazer pelas expressões literárias breves; um postal que louva a linguagem ágil e denuncia o gesto pretensioso e universal do livro.
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