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Os 100 anos de Tarzan, o filho das selvas.

10 abr

tarzan

 

Acaba de ser lançado o Tarzan que traduzi, fiz a apresentação e as notas. É uma edição para comemorar o centenário do personagem, ilustrada com os belos desenhos que o Hal Foster (Príncipe Valente) fez para a HQ do personagem.

A edição está sendo bem recebida e foi capa do caderno de cultura do Estadão nessa segunda:

http://www.estadao.com.br/noticias/arte-e-lazer,livro-e-filme-lembram-o-centenario-de-tarzan-o-rei-da-selva,1150188,0.htm

Segue pedacinho da apresentação para aqueles que, como eu, são fãs de quadrinhos:

INFLUÊNCIA E CONTINUIDADE: OS QUADRINHOS

As atuais histórias em quadrinhos de super-heróis são muitas vezes consideradas descendentes legítimas das chamadas “hero pulps”, as pulps de heróis, revistas que apresentavam histórias ilustradas de extensão equivalente aos romances, onde estrelavam personagens heroicos como O Sombra, Doc Savage e O Fantasma Detetive. Os quadrinhos norte-americanos, como conhecemos hoje, começaram a tomar forma em 1929 e a se tornar familiares ao público em meados dos anos 1930. Contudo, foi somente em 1938 que a fórmula se tornou verdadeiramente popular, quando a primeira edição da Action Comics – publicação da editora Detective Comics, que se tornaria a DC Comics – apresentava ao mundo a criação de Jerry Siegel e Joe Shuster: o Super-Homem.

A história de Tarzan nos quadrinhos começou uma década antes, quando o publicitário Joseph H. Neebe comprou os direitos do personagem para ser utilizado em tiras diárias de jornal e, em 1928, convidou o ilustrador Allen St. John,– que já ilustrava os livros de Tarzan, para desenhá-las. Com o convite recusado por St. John, o trabalho ficaria nas mãos do artista publicitário Harold Foster (1892-1982).

Das adaptações sofridas pelo personagem, as histórias em quadrinhos são consideradas as mais fiéis pelos fãs. Grande parte dessa predileção deriva do trabalho de Foster, que mantinha parte do texto de Burroughs abaixo de suas ilustrações – abrindo mão dos balões de diálogo e, dessa forma, valorizando tanto seu trabalho como o original. A primeira série de tiras foi publicada em grandes jornais norte-americanos no primeiro semestre de 1929. A presente edição traz quarenta ilustrações dessa primeira e histórica leva de desenhos, numa seleção que destaca a grande força gráfica do material produzido pelo artista.

Em 1931, Harold Foster voltou a trabalhar com o personagem e, valendo-se do espaço de uma página inteira de jornal, alterou o estilo predominante da época, usando técnicas cinemáticas em seus desenhos. Em 1937, devido ao grande sucesso alcançado, ele partiu para um novo projeto, vindo a ilustrar outro enorme clássico dos quadrinhos, o Príncipe Valente. Seu substituto, Burne Hogarth é outro favorito dos fãs. Autor de livros de técnicas de desenho e anatomia, afastou-se um pouco do trabalho de Foster, tornando Tarzan mais musculoso e criando sua própria versão da exótica vegetação africana.

Enquanto isso, a Action Comics fora uma iniciativa tão bem-sucedida que outras editoras quiseram produzir suas próprias revistas em quadrinhos e criar seus próprios heróis. Um grande editor de pulp fiction, Martin Goodman lançou, em 1936, Ka-Zar, a primeira de suas revistas pulp a tratar de um personagem contínuo a Tarzan: um homem branco que se tornava o senhor de uma selva africana. Aqui o ciclo se completava, e era o universo de Burroughs a fonte de inspiração para uma tradição ainda incipiente.

Em 1938 Goodman deu início a uma revista de ficção científica intitulada Marvel Science Stories. No ano seguinte decidiu investir em quadrinhos, batizando sua linha de Timely Publications, e sua primeira revista – lançada em outubro daquele ano – de Marvel Comics. Na época os Estados Unidos ainda sofriam os efeitos da Grande Depressão e a Europa estava sendo tragada pela Segunda Guerra Mundial. A cultura popular norte-americana respondia a um novo tipo de herói: o super-herói, um indivíduo que poderia solucionar as grandes ameaças existentes no mundo. De 1939 a 1941 os primeiros grandes super-heróis da editora – que viria a se chamar Marvel Comics – surgiam: Namor, o príncipe submarino, o primeiro Tocha Humana e o Capitão América. Com os Estados Unidos entrando na guerra, o Capitão América de Joe Simon e Jack Kirby vendia quase um milhão de cópias por edição.

A essa altura o mercado de quadrinhos dominava boa parte do que havia sido o mercado de pulp fiction. Tarzan não passou em branco nas tiras diárias e dominicais nos anos 1940, mas foi somente no começo da década de 50 que os fãs puderam apreciar, pela primeira vez, a arte de um mesmo artista em ambas as tiras. Bob Lubbers desenhou as histórias até 1954, quando foi substituído por John Celardo, que permaneceu o desenhista titular de Tarzan até 1968.

Com o fim da Segunda Guerra os super-heróis tiveram uma grande perda em sua popularidade, e o mercado de quadrinhos foi obrigado a diversificar seu foco, formando um novo público. Histórias de crime, romance, comédia adolescente, faroeste, monstros e animais engraçadinhos (Super Rabbit, Marvin Mouse) invadiram as prateleiras. É somente na década de 1960 que a Marvel reinventa o gênero, criando heróis falhos, mais tridimensionais, facilitando com isso a identificação do público.

Em um intervalo de dois anos – entre novembro de 1961 e setembro de 1963 – a editora lançaria seus super-heróis mais conhecidos: Quarteto Fantástico, Incrível Hulk, Thor, Homem de Ferro, os X-men e seu maior sucesso, o Homem-Aranha. Ao invés de cipós, o adolescente Peter Parker se balança pela selva de pedras de Manhattan em sua teia. É sintomático o fato de que, além de seus pais também terem morrido quando era um bebê, boa parte de sua galeria de vilões ser composta por animais – rinoceronte (Rino), escorpião, abutre, lagarto, polvo (Dr. Octopus), camaleão – e de um de seus inimigos mais mortais ser justamente Kraven, o caçador.

No início da década de 70 a DC Comics – lar de Batman e Super-Homem – adquiriu da Edgar Rice Burroughs Inc. o direito de publicação de Tarzan. No intervalo entre 1972 e 1977 o rei das selvas foi desenhado por um dos grandes artistas de quadrinhos norte-americanos, Joe Kubert. Grande fã do personagem, Kubert afirma em sua introdução de Tarzan: The Joe Kubert Years que releu todos os romances do herói e estudou a arte de Foster antes de começar a empreitada. O quadrinista pretendia recuperar a “realidade que foi tão intensa para mim”.

O esforço foi recompensado, a revista teve uma boa repercussão entre os fãs e fez com que a Marvel Comics, principal concorrente da DC, adquirisse os direitos do personagem. De 1977 a 1979, Tarzan foi desenhado por um dos grandes ídolos dos fãs de quadrinhos de super-heróis, John Buscema. O artista que já desenhara Vingadores, Surfista Prateado, Thor e Conan, o Bárbaro, emprestou seu talento a Tarzan – bem como os músculos do deus asgardiano e do bárbaro cimério – na série que foi chamada de Tarzan, Lord of the Jungle. Desde 1996 os direitos do personagem pertencem à editora Dark Horse Comics, que vem republicando materiais clássicos (como o de Joe Kubert), compilações e aventuras inéditas – entre elas os improváveis encontros de Tarzan com o Super-Homem e Batman.

Entrementes, a influência de Tarzan nas histórias em quadrinhos vai muito além de suas próprias publicações. No início dos anos 2000, o venerado roteirista Alan Moore – cuja obra-prima, Watchmen, foi considerada um dos cem melhores romances do século XX pela Time – publica a premiadíssima série Tom Strong. Também conhecido como “herói da ciência”, Strong cresceu nas Índias Ocidentais, em uma câmara hiperbárica criada por seu pai após o naufrágio sofrido pela família em 1899. Aqui, como um Tarzan ao revés, Strong recebe uma educação intensiva dos pais cientistas e, após a morte dos dois, se casa com a nativa Dhalua e regressa à civilização. Em sua história, Moore ainda faz questão de homenagear H. Rider Haggard ao batizar um dos personagens – um gorila que fala e se traja como um humano – de Rei Salomão.

Personagem-chave da cultura mundial do século XX, Tarzan chega, em 2014, a seu centenário de publicação em livro, reafirmando sua relevância no imaginário mundial por meio dos valores imbuídos em sua história, como a aventura e o heroísmo – ideais cada vez mais distantes numa sociedade superorganizada.