Truffaut & Cocteau.

6 mar

Truffaut e Cocteau em 1959.

Mestre, aqui nada de lisonjas, nada do blá blá blá usual, nenhuma dessas fórmulas clichês que só tem como objetivo dissimular a verdadeira personalidade daqueles que as empregam.

Estou fundando um clube de cinema que não dispõe de publicidade de qualquer tipo.

A sessão inaugural ocorrerá domingo dia 14 com a exibição de “O Sangue de um Poeta”. De sua presença ou ausência depende a vida ou a morte de meu “Círculo Cinemania”. Este Circulo é como uma criança prematura, tem pouca chance de sobrevivência.

Precisa de uma incubadeira − que só pode ser o senhor. Se aceitar apresentar seu filme domingo, às 10 da manhã, a criança sobreviverá. Senão, será mais um natimorto.

É com um pouco de angústia e muita esperança que aguardo, mestre, a sua resposta. Receba, com esta súplica, minhas saudações de muito respeito e admiração.

O belo texto de Pedro Corrêa do Lago (para o blog da revista Piauí) dá conta de um garoto de dezesseis anos rogando ao “mestre” Cocteau que compareça ao seu cineclube. O garoto era François Truffaut.

Cocteau não compareceu ao cineclube, mas, dez anos depois, estaria presente na consagração do rapaz no Festival de Cannes onde foi exibido Os incompreendidos.

Carta de Truffaut a Cocteau. 1948.

Fica registrada a gratidão ao cupincha Ivo, que me enviou o texto.

Anúncios

Meus amigos, os generais russos.

1 mar

Comemorando o lançamento de uma edição mais acessível de Guerra e paz pela Cosac, segue texto que escrevi em novembro para o blog da editora.

Orlóv-Deníssov e sua extraordinária barba.

Sempre será um bom motivo para eu me gabar o fato de ter sido o primeiro homem a ler a primeira tradução de Guerra e paz vertida do russo para o português. Digo isso porque quem teve o privilégio de realmente estrear a tradução de Rubens Figueiredo – com as famosas marcas de revisão do Word – foi Cacilda Guerra, a preparadora do calhamaço. Meu amor por Tolstói é antigo, mas minha jornada neste Guerra e paz começou há um ano, em meados de novembro de 2010 – fazendo minha leitura justamente depois que Cacilda liberava as provas.

Em maio de 2011, quando Paula Colonelli me chamou para ser seu assistente nesta empreitada, eu me encontrava às portas do Epílogo do livro, completamente envolvido e cativado pelo universo (sim, universo) de personagens fictícios e históricos que Tolstói havia criado (ou adaptado) durante os mais de seis anos de redação de sua obra-prima.

Um dos itens previstos para o processo de edição era justamente a redação de uma lista de fatos e personagens históricos que pudesse situar o leitor. Mais do que isso, queríamos fazer esta lista de modo que casasse com o texto de Tolstói – complementando-o quando fosse possível – e que seus verbetes pudessem relacionar-se entre si de modo eficaz. Uma consulta às edições estrangeiras que contemplavam um índice semelhante mostrou que as entradas eram sempre muito econômicas, sem a preocupação de esclarecer estes personagens ou, em muitos casos, sem sequer apresentar seus nomes completos e suas datas de nascimento e morte.

Neste momento começou então minha segunda “leitura” não só dos personagens de Guerra e paz, mas também da obra como um todo. Foi aí que realmente comecei a separar as criaturas de Tolstói (como o príncipe Andrei e Pierre) das criaturas da história (como o general Strógonov e o príncipe Razumóvski), a mergulhar no universo dos militares russos e franceses, e a perceber o grau de perspicácia e genialidade do autor em amalgamar tão bem sua narrativa aos eventos históricos.

Para a redação de nossa lista pesquisamos tanto em fontes que o próprio Tolstói se valeu – como os livros do historiador francês Adolphe Thiers – quanto em toda sorte de materiais que encontramos: desde enciclopédias virtuais de acontecimentos russos até livros bem peculiares, que ajudaram muito, como o incrível The Russian Officer Corps in the Revolutionary and Napoleonic Wars, 1792-1815 de Alexander Mikaberidze. Com as informações em mãos, iniciava-se o processo de pesquisa dentro do próprio Guerra e paz – para saber onde e como Tolstói inseriu cada personagem em seu livro – e depois de redação e edição dos verbetes que, entre outras coisas, envolvia encontrar o nome completo do personagem histórico em russo (quando estava com sorte, encontrava em alfabeto cirílico, na internet, depois de certo tempo de tentativa e erro) e mandar para o tradutor para que aportuguesasse segundo os seus critérios e enviasse de volta (obrigado Rubens!).

Em meio a este processo, personagens fascinantes surgiam. O general Pável Aleksándrovitch Strógonov, por exemplo, não é somente um militar que acompanhou o imperador Alexandre em sua campanha contra Napoleão. Nascido em uma proeminente família russa, ele viajou por toda França e testemunhou os eventos da Revolução Francesa em 1789. Quando Alexandre finalmente assumiu o trono, Strógonov se tornou seu confidente e, baseado em suas experiências de viagem, convenceu o imperador da urgência de outorgar uma Constituição – caso ele não quisesse também ter sua cabeça cortada. O leitor de Guerra e paz perceberá que a trajetória de Strógonov possui certas semelhanças com a do personagem Pierre, criado por Tolstói.

Outro personagem digno de nota é o príncipe Andrei Kirílovitch Razumóvski, geralmente citado como sendo somente um diplomata russo. Razumóvski ficou conhecido em Viena por encomendar a Beethoven a composição de três quartetos de corda com temas russos. Beethoven, ao invés disso, incluiu temas ucranianos nos dois primeiros da série Quartetos de Corda 7-9, Opus 59 – Razumovsky. Escute aqui o belíssimo terceiro movimento do primeiro destes quartetos:

Depois do inexprimível prazer de passar pelas 2500 e poucas páginas desta edição – e presenciar a validação dos anos de pesquisa crítica de Tolstói em livros de historiadores como Adolphe Thiers e Mikháilovski-Danílevsk – o leitor poderá também se aproximar um pouco mais destes senadores, agitadores, artistas, nobres e dos generais russos – todos integrados em “uma dependência que não sentimos”, segundo o autor russo – que se tornaram uma presença quase palpável em minha vida nos últimos meses.

Oscar 1960.

29 fev

Deu até vontade de rever Morangos Silvestres.

Cartinha do Bergman para a Academia.

Via.

80!

7 fev

Minha noiva vestida de preto é anterior a do Tarantino, ok?

Mais um post da série: mortos queridos que fazem aniversário. Este com um dia de atraso.

Abaixo a magistral participação de nosso amigo francês em Close Encounters. Destaque para a mão mecânica do extraterrestre.

130!

2 fev

130 com corpinho de 40 e poucos.

Para celebrar tão sobranceira data, apreciem vídeo com simpática estatuária:

 

Aproveite para ser “o primeiro a curtir isso” aqui embaixo, nessa época de preferências precipitadas.

Waits (and Yorke) for Godot.

8 nov

VLADIMIR:

 

ESTRAGON:

Dois vagabundos, maltrapilhos pontuais, atendem diariamente ao chamado de um certo Godot (que insiste em não comparecer, supondo que tenha de fato marcado o encontro). Vladimir e Estragon repetem-se ao infinito, ora como tragédia, ora como farsa, numa versão sinistra dos filmes de Hardy e Laurel, o Gordo e o Magro.

Você deveria ter sido poeta.

E fui. (indicando os farrapos com um gesto) Não está na cara?

LUSTRA amanhã.

4 out

Convite; clique!

Amanhã, dia 5 de outubro, na Casa das Rosas, meu amigo Dirceu Villa lançará sua tradução de Lustra de Ezra Pound. Abaixo estão dois porquês meus, respondidos por Villa, que farão você; leitor incauto; dar um passeio na paulista e adquirir o belo volume da Demônio Negro.

Por que traduzir o Lustra?

Lustra foi sempre, na obra poética de Pound, um livro muito peculiar e interessante: não é os Cantos nem algum daqueles poemas mais ambiciosos como Mauberley ou Homage to Sextus Propertius. Não recebeu a atenção do Cathay, porque o Cathay tinha esse chamariz da excentricidade, de vir de poemas chineses antigos, repropostos espertamente como um comentário elegíaco à Primeira Guerra Mundial, no mais hábil verso livre que se possa imaginar.

Ao mesmo tempo, Lustra corresponde à passagem dos dois movimentos ingleses de vanguarda: tem um espectro que vai do imagismo ao vorticismo. Não só, traz alguns dos poemas pequenos mais bem escritos, mais complexos da carreira de Pound. E, é claro, é o primeiro livro realmente modernista de sua carreira, livro que incomodou à crítica, que não achava critério de composição e, portanto, não sabia o que dizer dele e disse besteira, como de costume.

Foi o primeiro livro desconcertante de Pound, e é variado, temática e formalmente. Sofreu censura, incompreensão. Penso que em parte seja responsável por Pound ter acirrado sua escrita poética na direção que tomou depois. Ele era muito estimulado (para bem e para mal) pela oposição, e esse foi o primeiro livro a encontrar oposição dura pra valer.

E, last but not least, o livro estava espantosamente inédito em português, excetuando-se alguns poemas traduzidos por Augusto de Campos e Mário Faustino.

Por que ler o Lustra?

Em primeiro lugar, e mais importante, porque acho um prazer ler esse livro. É inteligente, variado: desafiador, comovente, divertido, aterrador, malicioso, etc. Produz um efeito na percepção de quem lê, um efeito de apreensão simultânea de diversos pontos de vista, e esse é um dos motivos de Lustra ser especificamente moderno em um dos sentidos que a historiografia literária dá para a palavra.

Depois, porque é um livro importante para a idéia de vanguarda, e é um livro fundamental no desenvolvimento da poesia de Ezra Pound. Sendo o velho Ezra um ponto capital para o melhor conhecimento da poesia do século XX (e da que se escreve até hoje), Lustra me parece ser o cerne das mudanças de linguagem. Veio antes do Waste Land do Eliot, antes dos grandes livros dos chamados “modernistas”, traz em si a arte dos futuristas, dos cubistas e indica caminhos futuros.

Foi um prazer ler Lustra durante todos esses anos. Não me parece que seja apenas impressão minha, me parece que é um livro bastante merecedor dos leitores interessados em poesia.